se numa noite de inverno um viajante

Thursday, February 16, 2012

flores venenosas e bagas comestíveis




Porque como ouço dizer desde sempre, ou quase, nem tudo o que brilha é ouro e nem toda a água é para se beber.
E isto pelos sintomas, pode ser só uma virose qualquer, a disfarçar-se de neurose. Digo apenas que hoje já tomava um paracetamol qualquer, daqueles que fazem bem à alma.

Thursday, November 10, 2011

diz que

O facebook insiste em sugerir-me como possíveis amigas, as exs do meu actual.
Está bem que somos todos muito modernos e corteses, e que as moças até devem ser boas raparigas, mas querido facebook não é preciso tanto, eu acredito mais em "cada macaco no seu galho" do que em "manter os amigos perto e os inimigos ainda mais perto".

Assim sendo, deixa lá!

Thursday, October 27, 2011

a divina comédia


Porque é que os deuses me odeiam?
Podia ter começado a chover mal meti os pés na rua, pés que apesar do que se avizinhava iam calçados com botas de salto, que gaja boa que é boa é também masoquista.
O que era meu estava guardado para mais tarde e assim lá fui eu a equilibrar-me nos saltos das botas, que por acaso são muito confortáveis, na primeira meia hora, dentro do autocarro com um carrinho de bebé (bebé a dormir o sono dos justos de forma a ganhar energias para me torturar melhor mais tarde) e uma mala média quase sem roupa mas com pacotes e pacotes de bolachas holandesas. Duas senhoras turcas, sentadinhas muito direitinhas a falarem mal de mim debaixo dos seus lenços, é o que dizem sempre aposto - olha-me aquela infiel duma figa nos seus saltos sem lenço, txi txi txi.
Sair do autocarro foi infernal, entrar no comboio igualmente terrível, com o filho da mãe do pica, a quem me apetecia muito introduzir um dos saltos da botas com o máximo de força possível no meio das perninhas, a apitar para fechar as portas enquanto eu tentava enfiar a mala e o carrinho com a pessoa pequenina gorda adormecida dentro do comboio, felizmente fui salva por um cavalheiro inglês, feioso mas viril, que agarrou no carrinho e em menos de nada o colocou dentro da carruagem, à saída do comboio o mesmo aconteceu, mas desta feita (expressão tão maravilhosa que eu pensava que nunca conseguiria usar) foi um cavalheiro holandês quem me socorreu e carregou a mala, fiquei com um bocado de medo que ele desatasse a correr com a minha malinha cheia de bolachas, mas tudo acabou em bem, comigo a agradecer e a abraçar a mala com delicadeza para não fazer das bolachinhas migalhas, mas sei, tenho quase a certeza, percebo dessas coisas, que só me ajudaram porque fico espectacular de saltos.
Já nas senhoras hospedeiras de terra os saltos tiveram o efeito oposto, com elas a dizerem sempre a sorrir qualquer coisa como - sua grande monga não podes levar o carrinho de bebé contigo até a porta de embarque, lixa-te, para a próxima não venhas para aqui armada em boa e pouco interessa que a nossa porta de embarque seja a meia hora daqui, alomba com a criancinha aguenta e não chora. tchau! 
Assim foi, e eu sempre a pensar que não podia piorar, mas tudo pode sempre piorar.
Agora vou ali ligar para os senhores da assistência em viagem porque o carro não pega.

Sunday, October 23, 2011

o presente envenenado

boa vizinhança - take 2


Os vizinhos, idosos usurpadores de detergentes, vêm tomar uma bebida cá a casa, esta tarde. Diz que é tudo porque são velhotes e ninguém consegue dizer que não a dois velhos fofinhos, eles como a sabem toda, fazem uso disso aproveitando-se das fraquezas de seres bondosos e desprevenidos, como o meu gajo, fazendo deles o que querem. Comigo não tinham sorte porque eu sou má, mas conseguiram, estão dentro!
Resumindo para além de usarem do meu detergente, não contentes querem também beber do meu rico vinho tinto tuga, que eu como boa emigra trago embrulhadinho no meio das roupinhas, juntamente com um chouricinho e uma ou outra alheira.
Se não voltar cá, já sabem, foram os senhores do lado que me fizeram a folha, ou qualquer coisa desse género, para me silenciar. Não se fiem no ar frágil e bondoso deles, faz tudo parte do truque.
E pelo sim pelo não vou ali contar as pratas!

Thursday, October 20, 2011

boa vizinhaça



Queridos vizinhos do lado, apesar de parecem amorosos, de já nos terem convidado para ir beber uma bejeca à vossa residência, e de estarem assim a atirar para o idoso, não se pode chamar velhos porque velhos são os trapos e quem diz é a minha avó. beijinho avó!
Pronto estão velhinhos (que se lixe adoro chamar velhinhos), mas querida vizinha, se o seu marido consegue carregar uma grade de cervejas na traseira da bicicleta, pode perfeitamente acartar com um pacotinho OMO, ficam já a saber que também se vende no super-mercado. Feito isso os senhores passariam a usar o vosso próprio detergente ao invés de andarem a fanar o meu, uma vez até pode ser, mas sempre meus senhores, não sou vossa mãe. Está bem que tenho muitos, gosto de comprar o xpto para roupa colorida, o não sei quê não sei das quantas para as lãs e o sem cheiro para a roupa da bebé, mas são todos MEUS, meus, comprados com o meu dinheirinho e destinados as roupinhas desta família. E a família  inclui apenas os que moram deste lado da parede, dentro do meu apartamento, até porque eu não sou nada dada a ceitas e comunidades hippies. O que é meu é meu, chamem-me nomes se quiserem, não vou perceber mesmo, por isso é na boa!
Estão avisados! Caso contrário quando precisar de cebolas vou ali buscar umas (não vou nada), aquela caixa com vegetais que vocês têm à porta de casa ao lado dos sapatos.
Amigos na mesma!

Tuesday, October 18, 2011

quando ele era ela


Convenci-me que o vizinho, que mora no prédio em frente, do outro lado do canal, homem moreno e magro, que não trabalha as quartas-feiras e usa um chapéu de palha absolutamente trendy enquanto se senta a trabalhar e a encarar a nossa casa, de frente, com coragem e sem medos (não como eu que neste momento lhe dou as costas) andava a olhar-me fixamente. Convenci-me que se senta ali a corrigir testes, na minha cabeça é professor, tem a casa com estantes cheias de livros, que eu invejo, de certeza andam por lá o Anna Karenina, o Guerra e Paz, todos os contos de Tchekhov, e como o vizinho é homem corajoso e sem medo aposto que está a ler último do Murakami. O vizinho é um homem erudito e estrangeiro, de certeza que é estrangeiro, já disse que é moreno e aqui os nativos são todos altos, loiros e espadaúdos, Thoreszinhos de trazer por casa, dificilmente confundíveis com morenos franzinos e intelectuais, sim o vizinho é  garantidamente intelectual e provoca-me todas as quartas-feiras em que não trabalha, ou trabalha em casa, mantém as cortinas abertas e senta-se a encarar a minha sala com o seu chapéu de palha, a fazer-se fashion.
Podia já lhe ter escrito milhentos bilhetes, em cartolinas gigantes que colaria à janela, a combinar um café no bar da esquina, aquele que está sempre cheio de adolescentes, quase não adolescentes, muito barulhentose e fica colado à pizzaria também sempre a abarrotar de gente. Tomaríamos café e discutiríamos primeiro literatura, cinema, pintura, eu sempre a fingir-me grande conhecedora e depois comentaríamos pormenorizadamente a  vida das pessoas que vivem deste lado do canal  e que o vizinho consegue observar mas eu não. Encontro marcado para todas as quartas-feiras, sempre à mesma hora, sem atrasos, faça sol ou faça chuva, que faz quase sempre, ou mesmo neve.
É verdade que vejo muito filmes, que sou um verdadeiro Woody Allen de província no que toca a criar conspirações e enredos mirabolantes, tudo pode acontecer na minha cabeça, vantagens de ser filha única e brincar muito tempo sozinha. Já este episódio podia  ter sido perfeitamente evitado se a minha vizinha da frente, morena e magra tivesse mamas. Mas por uma boa meia hora, tive um vizinho que lia todos os russos que amo e discutia comigo, com uma dedicação quase profissional, a vida da vizinhança.

Se passares por mim na rua finge que não me conheces!

Monday, October 17, 2011


Não Posso Adiar o Amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa
Que faz hoje 87 anos!






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