Convenci-me que o vizinho, que mora no prédio em frente, do outro lado do canal, homem moreno e magro, que não trabalha as quartas-feiras e usa um chapéu de palha absolutamente trendy enquanto se senta a trabalhar e a encarar a nossa casa, de frente, com coragem e sem medos (não como eu que neste momento lhe dou as costas) andava a olhar-me fixamente. Convenci-me que se senta ali a corrigir testes, na minha cabeça é professor, tem a casa com estantes cheias de livros, que eu invejo, de certeza andam por lá o Anna Karenina, o Guerra e Paz, todos os contos de Tchekhov, e como o vizinho é homem corajoso e sem medo aposto que está a ler último do Murakami. O vizinho é um homem erudito e estrangeiro, de certeza que é estrangeiro, já disse que é moreno e aqui os nativos são todos altos, loiros e espadaúdos, Thoreszinhos de trazer por casa, dificilmente confundíveis com morenos franzinos e intelectuais, sim o vizinho é garantidamente intelectual e provoca-me todas as quartas-feiras em que não trabalha, ou trabalha em casa, mantém as cortinas abertas e senta-se a encarar a minha sala com o seu chapéu de palha, a fazer-se fashion.
Podia já lhe ter escrito milhentos bilhetes, em cartolinas gigantes que colaria à janela, a combinar um café no bar da esquina, aquele que está sempre cheio de adolescentes, quase não adolescentes, muito barulhentose e fica colado à pizzaria também sempre a abarrotar de gente. Tomaríamos café e discutiríamos primeiro literatura, cinema, pintura, eu sempre a fingir-me grande conhecedora e depois comentaríamos pormenorizadamente a vida das pessoas que vivem deste lado do canal e que o vizinho consegue observar mas eu não. Encontro marcado para todas as quartas-feiras, sempre à mesma hora, sem atrasos, faça sol ou faça chuva, que faz quase sempre, ou mesmo neve.
É verdade que vejo muito filmes, que sou um verdadeiro Woody Allen de província no que toca a criar conspirações e enredos mirabolantes, tudo pode acontecer na minha cabeça, vantagens de ser filha única e brincar muito tempo sozinha. Já este episódio podia ter sido perfeitamente evitado se a minha vizinha da frente, morena e magra tivesse mamas. Mas por uma boa meia hora, tive um vizinho que lia todos os russos que amo e discutia comigo, com uma dedicação quase profissional, a vida da vizinhança.
Se passares por mim na rua finge que não me conheces!